Engenheiro Geólogo Ronaldo Malheiros explica terremotos venezuelanos

 

Venezuela
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Imagens criadas pelo geólogo Salatiel Alves de Araújo, com auxílio de Inteligência Artificial, apresentando informações técnicas sobre os terremotos registrados na Venezuela

 

 

Brasília, 29 de junho de 2026.


Na última quarta-feira (24/5), poucos minutos após a torcida brasileira começar a assistir à vitória sobre a Escócia, no terceiro e último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo de Futebol de 2026, a capital venezuelana e a cidade vizinha de La Guaira (a 27 quilômetros de distância) foram abaladas por dois terremotos em sequência. Com cerca de 40 segundos entre um de 7,2 graus na escala Richter e outro de 7,5 graus – no raro fenômeno denominado “terremoto duplo” ou “sismo gêmeo” (e “dupleto sísmico”, em espanhol) –, a tragédia causou a morte de milhares de pessoas, segundo estimativas internacionais. Estes terremotos tiveram reflexos com pequenos sismos registrados em Belém (PA), Macapá (AP), Boa Vista (RR) e Manaus (AM), além de outras localidades da região Norte. 

Nos dias seguintes, entre mais de 400 réplicas menores, houve terremotos de magnitudes 4,9; 4,8, e 4,6 sentidos dias 26, 27 e na manhã desta segunda-feira (29), respectivamente. Foram registrados 1.450 mortos até o momento e mais de 3 mil feridos haviam sido confirmados. Segundo explica o conselheiro federal engenheiro geólogo Ronaldo Malheiros Figueira, a magnitude do evento se deve, entre outros aspectos, à profundidade do hipocentro ou foco, “pois focos mais rasos tendem a produzir tremores mais intensos, uma vez que as ondas sísmicas percorrem uma menor distância entre este ponto e o epicentro, onde os sismos chegam com maior intensidade”. 

Ex-coordenador da Câmara de Geologia e Engenharia de Minas do Crea-SP e da coordenadoria nacional, Malheiros explica que “a Litosfera - que é a porção externa do planeta e constituída pela crosta e parte do manto superior - é compartimentada em 'blocos' que são limitados por falhas geológicas e que são denominados 'placas tectônicas'. Estas placas apresentam movimentos de convergência - a exemplo do ocorrido na Venezuela, envolvendo as Placas do Caribe, Cocos, do Pacífico e Sul-Americana; de divergência - registrado no processo de afastamento entre as Placas Sul-Americana e Africana - ou de transcorrência - que é marcada pela movimentação da Falha de Santo André, que é o limite entre a Placa do Pacífico e a Norte-Americana e que, a exemplo da região da Califórnia e de toda a costa oeste da América do Sul apresenta eventos sísmicos frequentes constituindo uma Zona Geologicamente Ativa. Por outro lado, a Placa Sulamericana, onde está inserido o Brasil, está se afastando da Placa Africana, o que cria atualmente um cenário pouco expressivo quanto a  processos da dinâmica interna relacionados a terremotos e vulcanismo”.

Apesar de não serem inéditos, os terremotos venezuelanos não são tão frequentes quanto os da porção ocidental do continente, conhecida como parte do Círculo do Fogo do Pacífico e formada por países que acompanham a cordilheira dos Andes, formada pelo choque das Placas de Nazca e Sul-Americana (Venezuela (parte ocidental), Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina). E que, estendendo-se até o Canadá, é marcado também pela existência de vulcões ativos e outras formações geológicas, como os gêiseres. Em Caracas, há registros de terremotos em 1900 (21 mortos, 7.7 graus), 1967 (245 mortos, 6.8 graus) e 2018 (5 mortos, 7.3 graus). Outras regiões, como o Sucre, também passaram por terremotos no século XX.

Esse terremoto de 2018 com 7,3 graus na Escala Richter ocorreu a 123 km de profundidade, enquanto os que ocorreram nesta semana foram a apenas 10 e 13 quilômetros de profundidade, respectivamente. O que explica a intensidade do evento e suas consequências, entre outros fatores, segundo o eng. geol. Ronaldo, é que “os focos foram mais rasos, condicionando a tendência de termos, no Epicentro - ponto na superfície onde as ondas sísmicas chegam primeiro -, o registro de magnitudes maiores”, ressalta. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o tremor mais forte foi registrado na cidade de Ela Guayabo, a uma profundidade de 13 quilômetros.  
 

Geólogo Ronaldo Malheiros é conselheiro federal e apresenta aspectos gerais sobre as placas tectônicas do continente sul-americano
Geólogo Ronaldo Malheiros é conselheiro federal e apresenta aspectos gerais sobre as placas tectônicas do continente sul-americano

 

Registros 
Geologicamente, o Brasil está situado no centro da Placa Sul-Americana. Os registros sísmicos no país são acompanhados ininterruptamente pela Rede Sismográfica Brasileira, uma das fontes que alimentam o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Assim, pela localização brasileira longe do limite convergente, o conselheiro federal justifica a ocorrência de poucos registros de terremotos no país, destacando, conforme o monitoramento do Serviço Geológico do Brasil - SBG, aregião de João Câmara, no Rio Grande do Norte, com microtemores frequentres entre 2.0 e 3.5, além de “reflexos de eventos expressivos na América do Sul, como o ocorrido  em razão dos eventos sísmicos na Venezuela. “Estamos em um contexto geológico bem diferente, como, por exemplo, na Turquia, que está situada no limite de três placas tectônicas com eventos expressivos já registrados, e o Japão, situado em cima do Círculo do Fogo do Pacífico, que constitui o país mais preparado e resiliente para o enfrentamento de terremotos”. 

 

Integração profissional
Atuante na Defesa Civil do município de São Paulo por 20 anos, Ronaldo Malheiros considera importante a parceria entre geólogos das Defesas Civis e geofísicos, a exemplo de ações integradas entre a Defesa Civil e o Instituto de Astronomia e Geofísica (IAG-USP).  “Tivemos, através do telefone 199 (emergência), o registro de alguns tremores na Zona Norte de São Paulo, decorrentes de um contexto geológico pontual. A partir deste evento e de outros sismos induzidos (provocados na região de estádios de futebol em dias de eventos) e de reflexos em regiões da capital de sismos que ocorrem frequentemente na região dos Andes, adotamos o protocolo de direcionamento ao Laboratório de Sismologia do IAG de todos os registros dos munícipes, relatando estes eventos. Depois de tomar conhecimento e sistematizar estas informações, o Laboratório também pôde, eventualmente, estabelecer a Escala de Mercalli - que constitui uma escala qualitativa de percepção usada para determinar a intensidade de um sismo a partir dos seus efeitos sobre as pessoas e sobre as estruturas construídas e naturais, diferentemente da Escala Richter, que é quantitativa e logarítmica, onde cada número a mais na escala equivale a dez vezes mais a amplitude do tremor e obtida pelos sismógrafos”, descreve.

Ronaldo aponta, ainda, que o Sistema Confea/Crea está recebendo, desde o ano passado, o registros dos geofísicos, que, além dos geólogos, “possuem habilitação e conhecimento para tratar de questões que envolvem a dinâmica interna do planeta, no caso em tela, os terremotos, onde a sismologia é uma das áreas de atuação da Geofísica”, destaca.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea